No meio de um espetáculo de luzes pulsantes e flashes, ele surge, o garoto que virou sensação, o nome que não sai da boca do povo. Depois de conquistar o Rumble, Dominik desfila entre as semanas como quem tivesse o mundo na palma de sua mão, embriagado pela própria grandeza. O autoproclamado irresistível, o “pika de mel” da vez… porém….
Barulho de buzinas soavam alto, até parece que as trompetas do Apocalypse que tão soando nessa desgraça. Nem mesmo o som do reggaeton de Dominik era tão alto quanto isso. De longe, dá pra perceber que aquelas luzes e flashes não eram paparazzis porra nenhuma. Nosso herói? Lá está ele, no meio do engarrafamento, preso no seu Low Rider com defeito, enquanto uma fila de carros atrás dele vai acumulando cada vez mais.
Dom: Mamacita… te prometo que voy a resolver esto en un segundo, ¿ok?
Mas mal ele encosta na tampa do capô… puta madre! Uma nuvem de fumaça explode pra fora, cobrindo Dominik da cabeça aos pés. Ele sai todo preto, parecendo que acabou de sair de um churrasco, de “pika de mel” agora virou “pika de carvão”.
Liv: Dom… acho que você devia aceitar a proposta daquele lunático do Moxley. A gente se empolgou tanto no rolê que, na real, nem mais dinheiro tem pra levar no concerto! E duvido muito que seu pai vai ajudar em alguma coisa.
Dom: Eu não preciso entrar em outra empresa de wrestling, mamacita… eu já tô no topo! Main Event do Homecoming, eu vou estar no pôster, com meu sorriso encantador, enquanto aqueles vermes da GCW ficam lá, cheios de inveja do meu gingado e do meu sorriso. Meu sangue latino ferve só de imaginar aquele título apoiado nas suas coxas, enquanto fico a bailar no ringue.
Não há necessidade de sair da zona de conforto agora, e pelo que eu tô vendo, vai ser uma caralhada de brutamontes que adoram quebrar e estilhaçar corpos entrando nessa empresa! E o Jon Moxley…ele tá selecionando a gente pra quê? O BBB do Hardcore? Só faltou na prova do líder enfiar um prego no rabo de um! Essa não é a minha praia e muito menos minha vibe.
Liv: Dominik, estamos aqui feito idiotas enquanto um bando de arrombados quer nossas cabeças! Não somos a porra do Bonnie & Clyde pra sair atirando em todo mundo e cair fora! Liga pra ele agora!
No meio de toda essa adversidade, um calvo, com uma pança que claramente é de muito churrasco e Skol Beats, foi peitar o nosso querido heroi “Dirty” Dom. Dominik dá um passo atrás, tosse, coça a cabeça e pensa: “Mamacita… que caralhos eu fiz pra merecer isso?”
NPC: Ô moleque, vai demorar muito aqui caralho?
Dominik: Moleque? ¿Sabes quién soy?
NPC: Não entendi porra nenhuma, mas cai fora daqui ou eu chamo a porra do ICE, seu filho da puta.
Dominik fechou seu sorriso branco colgate na hora, com os olhos arregalados e com uma fúria que nem mesmo o Popeye quando come espinafre teria, suas palavras são:
Dom: ? ¿QUÉ DIJISTE, HIJO DE PUTA? VOU REPETIR DE NOVO, S-A-B-E-S Q-U-I-E-N S-O-Y? Eu sou a porra do campeão do Royal Rumble, filho de Eddie Guerrero campeão intercontinental da ROH, e o melhor wrestler da atualidade. A PORRA DO SEU FILHO no teu carro devia me admirar.
NPC: Foi mal, prefiro assistir o documentário do Brownsky Cardona que ver suas lutas de merda.
Dom: ……
Após um breve silêncio, e os outros passageiros todos sairem do carro pra ver o que tava acontecido. Dominik com um rugido como se incorpora-se o próprio Conan o barbáro ou melhor, o Zorro, pega um pedaço de madeira do chão e começa uma batalha mortal contra o careca fudido. Todos se juntaram para tentar separar até a chegada da policia enquanto Liv fingia não conhecer nosso destemido bigodudo.
No final da noite. Dom está sentado numa cadeira ao lado de Liv, ainda todo sujo de fuligem, com as mãos algemadas uma visão que mistura derrota, exagero.
Liv: “Dom, agora vamos ligar pra eles resolverem isso pra nós, né?”
Ele suspira, coça a cabeça e olha pra Liv com aquele olhar dramático:
O som estrondoso estourava nas ruas da nossa querida Beverly Hills. Um novo morador tinha acabado de encostar na área pra somar na vizinhança,era ele: o filho da puta com a maior malemolência entre a rapaziada, o cara com a voz abençoada por GOD, aquele que, se encostar na tua namorada, no mesmo segundo ela já vira tua ex. O incrível, gostoso igual diamante negro, e o futuro namorado da tua ficante J-T-G.
O rapper tava no seu momento particular, largadão no banho gelado da sua banheira banhada a ouro, o lado de uma loirinha bonita pra caralho mas interesseira num nível que, se o nosso mito bobear dois segundos vai ficar sem casa e tendo que pagar pensão em dois estalos.
Loira que o JTG não lembra o nome: Querido, por que a gente ainda tá nessa banheira? A cama é tão confortável pra ficarmos juntos… se ficar aqui vai pegar um resfriado.
JTG: Hey, lady, hold on. Agora eu tô com a mente em outro lugar, sacou? Um prodígio como eu não tem tempo pra deitar e fazer love assim do nada não é assim que a parada funciona, feel me? Hoje meu tesão tá é naquela luta. Só de pensar que vai ser minha primeira vez pisando naquele ringue… já sinto o calor subindo pelos pés, a energia batendo no peito. WHO ELSE IS WITH ME? WHO IS THE BEST PLAYER? ME J-T-G, DO you understand now player?
Loira: Quê? Por que diabos você tá falando assim comigo? Eu só tô aqui porque você me convidou e prometeu uma viagem pra Cancún, e até agora a gente não saiu nem da fronteira do México, “player”
JTG: É que tu ainda não entendeu o que é o lifestyle do ‘J-T-G’, baby. Eu já falei: eu não sou só um rapper torrando grana em jatinho e vagabundas. No pacote J-T-G vem tudo junto: jatinho, garotas do job… e luta livre. Porque enquanto uns voam pra Cancún, eu voo em direção ao que meu coração e meus instintos mandam. Aquele discurso do Jon Moxley acendeu algo aqui dentro, trouxe o moleque de volta como se um anjo calvo tivesse descido dos céus pra acordar o mini Jaysson, o garoto que sonhava ser super-herói e sair distribuindo porrada em todo mundo.
Loira: Ta bom, ta bom “J-T-G”, mas porque alguém que já tem tudo vai ir se envolver com essa lutinha de mentira?
JTG: Lutinha de mentira???
A água da banheira transborda. o cara levanta todo molhado e imponente… o pé escorrega no piso ensaboado e PÁ!, caiu de bunda no chão com tamanha idiotice que ouvia.
JTG: GIRL! IT’S NOT FAKE. Se eu, J-T-G, disse então tá dito. Igual minhas canções, aquilo é pura arte, é a gente se expressando na violência crua. Não é à toa que o convite do Moxley me agradou tanto. Eu não preciso cantar pra milhares agora… eu preciso é da melodia de ouvir meus adversários implorando no ringue. E quando eu transformar essa experiência em som, vai ser G-R-E-AT! Até Beethoven e Mozart iam largar o piano e cair aos meus pés. Meu álbum vai estourar no topo das paradas e a capa? Com meu físico aesthetic de escultura de museu, de pé no topo, e meus oponentes empilhados abaixo, uma obra clássica que o mundo inteiro para pra admirar, understand now?
Não sou muito de puxar o saco de ninguém, não mas tem uma exceção: Elijah Burke, lá da JWW. Mano… quando eu crescer eu quero ser um filho da puta daquele nível. Sair no soco com os mais casca-grossa e terminar a noite com o cinturão pesado batendo na minha cintura. Pensa só o quão gostosa tu ia ficar com um cinturão com o meu nome preso nessa tua cintura linda, baby. Nem Afrodite ia resistir a um homem nesse nível… e nem mesmo uma deusa teria poder pra te separar de mim, é…. qual é o nome dela mesmo?.....
A garota soltou um sorriso, a mina até esqueceu que o nosso protagonista tinha acabado de admitir que curtia as do job. Vai ver é porque J-T-G só guarda na memória nome de mulher de caráter… as que querem o dinheiro dele ele nem salvo contato. Perai, para tudo….. ele está escrevendo….. O filho da puta teve uma ideia!
“Eu não quero perder, essa rinha de lutadores vai ser incrível pra valer,
Você vai encarar? Então já começa a rezar,
Porque nem mesmo o SUS vai dar conta de te salvar.
Sua namorada nem te vê? Claro, ela mudou de direção,
Trocou tua sombra fraca pelo brilho do campeão.
J-T-G na cena, sexual chocolate de respeito,
Quando eu passo, até o espelho fica olhando meu peito.
My dick is ready for you, mas não vem com I love you,
Isso aqui é só vitória, sem romance no menu.
J-T-G no topo gritando: I’m a motherfucker GENIUS!”
JTG: Damn… eu sou realmente um gênio! King of the Indies, né? Tá longe… mas ao mesmo tempo perto. Só de falar o nome já me dá arrepios. Quem imaginaria que eu teria coragem de pausar minha carreira bem no topo onde eu cheguei? Mas não tem jeito no fim, isso aqui vai virar combustível. Inspiração pura, tanto pro artista quanto pro wrestler. Ohio não é? Acho que chegou a hora de dar uma visitinha.
Horas depois, no mais absoluto nada, J-T-G simplesmente decidiu que ia pra Ohio no seu jatinho particular. O filho da puta decolou no meio da madrugada… e ainda esqueceu o som ligado na mansão, estourando sozinho pras paredes vazias de Beverly Hills.
Após algum tempo, apenas havia nosso protagonista e uma sala com pouco mais de 200 lugares em volta.
JTG: é aqui que eu vou ter que chutar dezenas de bundas, é? Pequeno demais pra alguém do meu tamanho. Eu fui feito pra palco gigante, um Madison Square Garden da vida é que combina com a minha grandeza. Isso aqui parece o palco de show de talentos da minha escola… e ainda assim os 200 lugares vão lotar só com minhas fãs gritando meu nome.
Ele começa a se dirigir à saída, já pronto pra ir embora daquele lugar abaixo do seu padrão, mas algo o faz parar no meio do caminho. Em vez de sair, muda de ideia e decide se sentar numa das últimas cadeiras lá no topo, observando tudo de cima. A vibe muda totalmente do arrogante e excêntrico rapper.
JTG: Não sabia que era essa a visão que o público tinha do palco… Quando eu era só um garoto no Brooklyn, eu nem tinha dinheiro pra ingresso. Tudo que me restava era assistir pela televisão aqueles caras brilhando ali embaixo, gigantes, pareciam até inalcançaveis… eu prometi pra mim mesmo que um dia a vista ia ser deles me olhando…. e esse é o começo de tudo. Garotas e fama? Hoje isso é só bônus. Eu não preciso fazer esforço nenhum pra ter essas coisas. O que eu vim buscar aqui é outra parada satisfação própria. Resgatar o amor verdadeiro pela glória, sem ser só prazer e luxúria. Porque no fim, o que eu quero não é só ser visto… é merecer ser lembrado. inha carreira musical pode até ficar em segundo plano, aqui no wrestling eu quero ser eterno.
Ele se levanta, coloca a cadeira de volta no lugar e, a passos lentos, se retira. No instante em que cruza a saída, já não era mais o J-T-G falando, era o pequeno Jaysson.
Enquanto isso, em Beverly Hills… várias viaturas da polícia cercam a mansão do rapper por causa do barulho.
Luzes vermelhas e azuis piscando nas paredes de mármore, vizinhança em choque, e a loirinha agora algemada, maquiagem borrada e sendo levada pelos tiras. Isso ta parecendo até CSI. Suas únicas palavras ecoam na rua inteira:
Loira que JTG não lembra o nome: JTG, CADÊ VOCÊEEEEEEE?!
O relógio na parede marcava três e quinze da tarde quando Tyler Breeze cruzou as pernas no divã, olhando rapidamente para o próprio reflexo na tela preta do celular. Ajustou o cabelo com dois dedos em um gesto quase involuntário.
A psicóloga observava em silêncio, a caneta apoiada no caderno.
— Então — disse ela, finalmente — você mencionou ao telefone que está prestes a entrar em uma nova empresa.
Tyler soltou um suspiro curto.
— Big Mouth Loud. Já ouviu falar?
— Não.
— Sortuda.
Ele deu um pequeno sorriso, daqueles que parecem ter sido ensaiados diante de um espelho.
— É um lugar cheio de homens... — Tyler fez uma pausa, procurando a palavra, embora claramente já a tivesse escolhido antes de entrar ali. — Tóxicos.
A psicóloga ergueu ligeiramente as sobrancelhas.
— Tóxicos?
— Ao extremo. Do tipo que grita, bate no peito, acha que ser um idiota é personalidade. Você sabe. Masculinidade frágil, ego inflado, essas coisas.
Ela fez uma anotação.
— E por que você quer trabalhar com eles?
Tyler demorou alguns segundos para responder. Não porque não soubesse, mas porque parecia estar escolhendo a forma mais elegante de dizer algo que, no fundo, já o favorecesse.
— Porque alguém precisa elevar o nível.
A psicóloga levantou os olhos do caderno.
— Quero dizer... alguém precisa trazer um pouco de classe para aquele lugar. Um pouco de... — ele apontou discretamente para si mesmo — refinamento.
Silêncio.
— Tyler — disse ela — você começou a terapia porque tinha dificuldades em reconhecer padrões de narcisismo no seu comportamento.
— Tinha, doutora. Bem conjugado.
— Você acredita que isso mudou?
Ele sorriu. Um sorriso calmo, seguro demais para alguém refletindo sobre si mesmo.
— Eu definitivamente sou uma pessoa melhor do que quando comecei aqui.
— Em que sentido?
— Em muitos. Antigamente eu achava que era superior às pessoas.
— E agora?
Tyler pensou por um instante.
— Agora eu só reconheço quando isso é objetivamente verdade.
A psicóloga fechou o caderno por um momento.
— Tyler, você descreveu a organização inteira como tóxica. O que exatamente isso significa para você?
Ele ficou pensativo.
— Pessoas que não percebem o impacto que têm nos outros. Que vivem presas ao próprio ego. Que transformam tudo em competição.
— Entendo.
Ela fez outra pausa.
— Você acha que está imune a isso?
Tyler abriu um sorriso de canto.
— Não imune, apenas… melhor equipado.
— Como assim?
— Autoconsciência. Terapia. Crescimento pessoal.
Então acrescentou, quase casualmente:
— E, claro, talento.
A psicóloga respirou fundo.
— Tyler… você já considerou que talvez esteja indo para esse lugar porque ele permite que certas partes suas continuem existindo?
Ele inclinou a cabeça.
— Partes minhas?
— As que gostam de ser o centro de tudo.
Não mais que um segundo se passou até que a resposta viesse até ele.
— Doutora, eu sou um lutador profissional.
Ele se levantou, ajeitando a jaqueta como se estivesse prestes a entrar em um palco invisível.
— O centro de tudo é literalmente a minha vida.
A psicóloga observou enquanto ele caminhava até a porta.
— Tyler.
Ele parou.
— Sim?
— Na próxima sessão, gostaria que pensássemos em outra possibilidade.
— Qual?
Ela respondeu com calma:
— Que talvez você não esteja indo para um lugar cheio de homens tóxicos.
Tyler franziu levemente a testa.
— E para onde eu estaria indo?
Ela segurou seu olhar por mais tempo do que o habitual.
— Para um lugar onde finalmente vai encontrar pessoas muito parecidas com você.
Tyler ficou em silêncio.
Então soltou mais um sorriso tranquilo, confiante.
— Doutora — disse ele — isso só prova que eu vou ser o melhor lá também.
Semana atrás de semana, a vida na estrada é cruel, ainda mais enquanto fazia curativos e me anestesiava com inúmeros comprimidos. Minha concepção de tempo parecia abstrata. Multidões gritavam meu nome enquanto eu sofria para entender os limites do meu próprio corpo. A adrenalina me guiava até o ringue, a partir daquele momento o restante era mero detalhe. Aqueles 2 segundos no ar antes do impacto de meu Swanton Bomb pareciam como horas, premeditavam mais uma de minhas vitórias. Essas que, sendo honesto, pouco me recordo. Apesar de todo o dinheiro e reconhecimento, meu corpo se desmanchava a cada show. Todas essas ressalvas pareciam irrelevantes ao ouvir milhares de pessoas gritando o meu nome. Em algum quilômetro dessas estradas percorridas, minha cabeça viajava pelos motivos de todos esses esforços. Em muitos momentos, as dores se tornavam insuportáveis, os caminhos entre shows pareciam intermináveis, era inevitável usufruir de substâncias que me anestesiavam durante essas rotas.
Em algum momento, o wrestling se tornara um motivo para me dopar, seja por conta das dores ou pela ânsia de estar em uma nova cidade, com milhares de fãs a minha espera. A cada show, era minha responsabilidade se arriscar mais. Aquilo que havia feito na semana anterior não seria mais suficiente pra entreter aquele público. Nenhum dos diretores me comunicavam suas expectativas, mas as críticas continuavam a vir assim que eu não entregasse a mesma apresentação de outros dias. Não havia lugar para incertezas, a constante era que Jeff Hardy entregasse algo que o público se impressionasse ainda mais que em outras cidades.
Não posso negar, havia algo nessa necessidade que me levava ao meu limite. Mesmo as mais pesadas das drogas não traziam a mesma êxtase daquela silêncio ensurdecedor enquanto eu me arriscava novamente em spots mais perigosos do que qualquer um poderia imaginar. O salário ao fim do mês era o mesmo dos outros. Os riscos, não. A cada semana, mais anestésicos, mais drogas, mais preocupações.
Em uma dessas turnês, eu cheguei ao meu limite. As substâncias que me mantinham inspirado haviam ultrapassado barreiras que eu não poderia imaginar. Não havia mais tesão em lutar, em alguma dessas longas jornadas poder participar de shows eram apenas um pretexto para continuar usando.
Nesse momento, decidi que não existia mais propósito em arriscar meu corpo da maneira que eu fazia. Essa decisão foi a mesma que me tornou descartável aos olhos de meus chefes.
Estive longe do wrestling por algum tempo, mais do que eu imaginava que conseguiria. Mas, não retornaria sem algo que me trouxesse a mesma ânsia. Quando recebi a ligação de um velho amigo... tudo mudou. Aquele vazio que sentia ao viajar de cidade em cidade, voltou ao me deparar com a ausência de ação. A falta de wrestling me trouxe a refletir sobre minhas paixões e verdadeiros objetivos. Entre todas as viagens e diferentes experiências que pude viver sob influência de diferentes drogas, nada puderam substituir o que vivi dentro de um ringue. Apenas precisava de algo que me movesse. Alguma coisa que me fizesse enxergar, novamente, um motivo para colocar meus ossos em cheque. Nada além disso. Não me importa as ovações, públicos me aclamando, pedisos de autógrafo. Dessa vez, será diferente. Admirações vazias me levaram ao buraco, aquele Jeff que se mataria por um a reação barata foi morto assim como meu respeito pela comunidade do wrestling.
Maldito seja o homem que me criou neste mundo tão mesquinho e tão fatal
[Saya está sentada à uma larga mesa com um grande caixão no centro, e vinte velas o cercando]
Você sabe qual é o problema daquele que é imortal? Ele persevera. Maldito seja o homem que o criou neste mundo tão mesquinho e tão fatal. Uma fênix que não fora confinada em uma gaiola tende a morrer todos os dias, e renascer todos os outros para morrer da mesma maneira de novo e de novo. Você sabe qual é o problema daquele que é imortal? Ele não enxerga isso como um fardo, mas sim como um privilégio. Como se morrer todos os dias fosse uma punição justa para que ele tivesse a grande oportunidade de continuar morrendo. Alheio a um sentimento escuso que transporta em seu peito: a inveja daqueles que experimentarão a morte apenas uma vez. Você sabe qual é o problema daquele que é imortal? Ele vive. Ele é perpétuo, e carrega consigo todos os seus erros. Ao ponto de já ter errado tanto, mas por ter permanecido, ver seus erros serem considerados acertos por aqueles que não têm oportunidade para errar. Ele acaba se tornando um exemplo a ser seguido por pessoas que não têm condição para seguir. Você sabe qual é o problema daquele que é imortal? Ele pode conquistar pessoas, ele pode conquistar o mundo, mas ele não pode conquistar o seu descanso. Como uma fênix ardendo o auge das suas chamas e percebendo que tudo ao seu redor são chamas. O problema daquele que é imortal é que a imortalidade é um inferno, o que explicita ainda mais a dicotomia: ninguém venera mais a morte do que ele.
Eu fui treinada assim. Cada fracasso, cada derrota absorvidos como a promessa de que a próxima vez que minhas cinzas se incendiassem eu voaria mais alto, brilharia mais forte. Em meio a infinitos dias bons, infinitos dias horríveis, ensinaram-me que isso era resiliência. Que a coisa mais importante nesta indústria, neste esporte, nesta arte, nesta vida… Era resistir. Apanhar, morrer, mas seguir. E que mais importante do que os cinturões que disputamos, do que a glória pela qual nos degladiamos, era a inspiração que eu traria para outros através da minha perseverança. Era a história que eu escreveria através da persistência. Eu era uma fênix, enfim, eu possuía um privilégio que tantos outros não. Esse era o meu poder, esse era o meu papel. Quando você pode voar, você olha para cima imaginando até onde pode chegar. Qual é o limite que Ícaro ultrapassou? Mas, eu olhei para o lado e finalmente este véu de fantasias ruiu: eu nunca fui a única. Incontáveis outras fênices pisam nos mesmos ringues que eu todos os dias. Incontáveis outras fênices me observam com brilho em seus olhos todos os dias. Sofrendo das mesmas angústias, iludidas pelas mesmas promessas. Minhas asas são feitas de fogo, mas tantas ao meu redor são feitas de fogo! Tudo ao meu redor é feito de fogo! Eu não sei qual é o limite que Ícaro ultrapassou, mas eu ultrapassei também porque tudo ao meu redor é um inferno!
Depois de anos e mais anos eu finalmente morri. The Golden Phoenix is dead! E ao me entregar ao abraço frio da inexistência, pela primeira vez eu me arrependi. Arrependi-me de tê-lo recusado por tanto tempo. Eu finalmente alcancei o céu. Mas, infelizmente… Eu ainda sou uma fênix. Alcançar o céu foi um grande feito, mas a minha permanência nele ainda não me foi concedida. Eu ainda sou feita de fogo, eu ainda estou presa no inferno. Minhas cinzas se reacenderam, mas dessa vez algo diferente se ilumina. Não mais um pássaro dourado, vagando pelos ares em busca de sentido. Agora, a Grande Marquesa do Inferno, em sua marcha encantadora e solitária de volta para o céu.
Eu tenho um trabalho a fazer. Recebi um convite para retornar ao esporte pelo qual eu me dediquei a minha vida inteira. O esporte que matou Saya Kamitani, o esporte que morreu por isso. Uma ala deste inferno da minha vida que havia se tornado tão… Monótona. A minha relação com ele mudou tanto nos últimos anos ao ponto de que eu não aceitaria este convite… A não ser que ele viesse como uma promessa. A Phenex canta uma melodia encantadora, uma súplica aos céus para que finalmente me aceitem. No convite, uma ode ao suplício. Uma música simples, uma canção similar àquela que me atraiu ao ringue pela primeira vez. Mas, meus ouvidos estão treinados agora, e eu sei qual é a letra e o ritmo que vamos usar. A coisa mais importante nesta indústria, neste esporte, nesta arte, nesta vida… É machucar! Enquanto o frio daquele abraço não arrepiar minha pele novamente, o prato frio da minha vingança irá saciar o meu espírito enquanto minha marcha prossegue. Ferir quem me feriu em troca de absolução, ferir quem não me feriu em troca do puro prazer de desmistificar o óbvio. Ferir aqueles que mataram o wrestling em busca de consagração, ferir aqueles que querem salvar o wrestling, mas não podem nem salvar a si próprios.
Peço que não me interpretem mal. Eu não quero me vingar do wrestling por ter me matado. Eu o agradeço solenemente por isso. Como retribuição, eu retornei. Como retribuição, estou oferecendo a minha arte para guiar estas fênices perdidas no caminho da violência. Eu quero me vingar da antiga Saya Kamitani por ter contribuído com o movimento que destruíu a única coisa que amei sobre a vida. Da Saya Kamitani que lutava com medo de morrer, que vivia com medo da única expressão de arte humana que nos aproxima do nosso grande objetivo: a morte. Da Saya Kamitani que acreditava que o ápice de sua jornada seria a coroação como campeã. Que renascia todos os dias com medo de abraçar o fracasso. Afinal, ela era só uma fênix. A minha vingança é entrar no King of the Indies e machucar todos vocês. A minha vingança é vencer o King of the Indies, não para me consagrar, mas para que todos vocês percam! A minha vingança é matar todos vocês, para que as fênices renasçam renovadas por uma esperança vazia, e se deparem com a silhueta da Grande Marquesa do Inferno gargalhando sobre seus túmulos. A minha vingança será me tornar a Phenex Queen of the Indies, e a única maneira que vocês têm para me impedir… É ME MATANDO!
[Saya começa a gargalhar freneticamente e vira a mesa de uma vez, derrubando o caixão e as velas sem cerimônia. O fogo começa a se alastrar pela madeira do caixão e pela sala]
Essa foi a promessa que eu recebi, vingança contra Saya Kamitani ou a morte. A chance de ver com meus próprios olhos, de sentir com meu próprio corpo, se a indústria que ela ajudou a destruir possui uma última chance. Se o wrestling também é uma fênix esperando uma fagulha milagrosa para reacender. Depois de anos, eu finalmente retorno ao ringue iluminada. Não pelas minhas chamas, mas pela ciência de que sempre estive presa neste inferno e não posso sair tão cedo daqui. Pela ciência de que no primeiro evento da Big Mouth Loud, a minha boca irá se abrir para cantar uma melodia harmoniosa, em sincronia com os gritos de desespero de vocês, em sincronia com o silêncio desacreditado da plateia, e com o barulho do gongo soando para anunciar minha vitória.
Eu sempre achei que iria dar certo porque amava o wrestling. Mas, depois de abraçar o fracasso percebi que sempre fui tão vazia. E do lugar onde não há nada, surge o ´ódio. Vocês vão morrer querendo salvar o wrestling porque o amam, e eu vou matá-los porque eu os odeio!
[Saya gargalha de novo, enquanto as chamas tomam toda a sala]
Não queime uma fênix, apague-a
Saya Kamitani The Phenex Queen A Marquesa do Inferno
Dentro de um escritório de luxo, as luzes se acendem e iluminam o ambiente. Sentado atrás de uma mesa de madeira escura, um homem de óculos escuros observa a câmera de longe, tendo um sorriso no rosto.
Sabe, Mox, eu ouvi você falar sobre decadência, sobre fraqueza, sobre um esporte que perdeu a própria essência e, pela primeira vez em muito tempo, alguém finalmente teve coragem de expor o que muitos fingem não ver. Mas existe uma diferença fundamental entre nós dois, e ela define exatamente por que tudo isso que você está construindo já não te pertence mais.
Você olha para esse cenário e enxerga algo que precisa ser salvo, algo que precisa ser resgatado pela violência, pela resistência, pela tal “força bruta” que você tanto idolatra, enquanto eu olho para esse mesmo cenário e enxergo uma estrutura falha, pronta para ser tomada, reorganizada e dominada por alguém que entende que o verdadeiro poder nunca esteve nas mãos de quem luta mais forte, mas sim de quem controla o jogo enquanto os outros acreditam que ainda estão lutando.
Você reuniu homens, chamou de matilha, declarou guerra contra um sistema que você acredita estar corrompido, mas isso não é nem de longe uma revolução. Você ainda está preso à necessidade de combater algo, de provar algo, de bater de frente com uma ideia que já te venceu há muito tempo. Enquanto você distribuía socos tentando acordar um mundo que você julga adormecido, eu estava observando, aprendendo, entendendo cada engrenagem que mantém essa indústria funcionando, cada bastidor que define quem sobe e quem desaparece, cada decisão que transforma homens comuns em nomes inevitáveis.
E agora você aparece com a Big Mouth Loud, com esse discurso de mudança, de brutalidade e de sobrevivência acreditando que finalmente assumiu o controle. Mas a verdade é que você construiu um palco e todo palco, cedo ou tarde, encontra alguém que nasceu para ocupá-lo, alguém cujo holofote é brilhante demais para ser ofuscado.
Esse seu King of the Indies que você trata como um teste para separar “os poucos que ainda sabem lutar” dos muitos que você despreza, na verdade, é a maior ironia de tudo isso. Você não está criando uma competição, mas sim organizando uma coroação. Cada homem que atender a esse convite, cada lutador que entrar naquele ringue acreditando que está mais próximo da sua visão, mais alinhado com essa ideia de um pro-wrestling mais duro, mais real, todos eles vão perceber, tarde demais, que não estão lutando por você, nem por esse conceito distorcido de pureza que você tenta resgatar.
Eles estarão, na verdade, participando da consolidação de algo muito maior, algo que vai além da sua compreensão, algo que começa no momento em que eu decido entrar naquele torneio.
Porque você fala sobre criar um ambiente onde apenas os mais ardilosos sobrevivem e nisso, Mox, você finalmente disse algo que importa. Mas o que você ainda não entendeu é que ambientes assim não são liderados por quem os cria, mas são dominados por quem melhor se adapta a eles. Neste mundo não existe ninguém nesse negócio que entenda adaptação, controle e domínio melhor do que eu. Eu não sou um produto dessa indústria, mas sim um mecanismo que define como ela funciona.
Eu não preciso provar que sou perigoso porque o perigo real nunca anuncia a própria chegada. Quando ele se estabelece silenciosamente, já é tarde demais para reagir. Enquanto esses homens lutarem para sobreviver ao caos que você quer instaurar, eu estarei acima disso, moldando esse caos, direcionando cada consequência, transformando cada queda em mais um passo rumo ao controle absoluto.
E é por isso que, quando esse torneio acabar e o último suspiro de resistência desaparecer, você não vai encontrar o “rei das indies” que tanto procurou. O que você vai encontrar é alguém que não apenas venceu o seu jogo, mas que reescreveu completamente as regras enquanto você ainda tentava entender como tudo saiu do controle.
Porque isso nunca foi sobre força, nunca foi sobre brutalidade, nunca foi sobre resgatar valores antigos, mas sempre foi sobre poder. E poder não pertence a quem grita mais alto, ou a quem bate mais forte, pertence a quem sabe exatamente quando agir, onde agir e, principalmente, a quem transformar a visão dos outros em ferramenta para o próprio domínio.
Então continue, Mox, traga todos eles até mim. Convide cada homem que acredita ter o que é preciso para sobreviver à sua BML. Alimente essa ideia de que você está construindo algo incontrolável porque, quanto maior for esse caos que você tanto deseja, mais inevitável será o meu domínio sobre ele. E quando tudo estiver completo, quando não restar dúvida, quando até você perceber o que realmente criou, a Big Mouth Loud não será lembrada como a sua revolução, nem como o seu legado. Ela será lembrada como o momento exato em que você abriu as portas para que eu assumisse tudo.
No fim de tudo, Mox, essa luta barata não vai criar o rei da BML. Você está entregando um império nas mãos do homem que nasceu para governar.
Deixe nas mãos do chefe, Mox, e tudo será resolvido.
Biff Busick está andando de um lado para o outro em seu vestiário, passando fita em seus punhos antes de mais uma luta - a terceira em seu fim de semana, mas a primeira em Ohio.
Eu ando ocupado... But fuck It, Biff Busick não recusa um bom pagamento para se matar dentro desse ringue contra quem quiser fingir que é bom o bastante para encara-lo.
Eu iria falar mais... Porém ações dizem mais do que palavras. E eu não vou gastar a maldita saliva após ver que Aristocraldo Benecral fez duas partes.
Dois anos atrás, Ohio. Um desses lugares que ninguém lembra o nome, mas todo mundo reconhece quando vê; rua larga demais pra quase carro nenhum, luz fraca piscando em poste velho, vento passando entre casas baixas com tinta descascando, e um bar com uma placa escrita Cold Beer falhando metade do tempo, como se nem ela tivesse vontade de ficar acesa. Eu tava com uma mulher que não perguntava nada, não queria saber quem eu era, e isso já bastava pra mim, porque eu nunca fui homem de explicar minha vida pra ninguém; eu entro, faço o que tenho que fazer e sigo em frente. A gente entrou, sentou, pedi qualquer coisa forte… e lá estava você, Jon Moxley, jogado no balcão como se aquele pedaço de madeira fosse a única coisa te impedindo de cair no chão.
Você tava bêbado de verdade; não era pose, não era charme, era feio de ver. O copo indo e voltando sem parar, metade do líquido ficando pelo caminho, a mão tremendo, o olho vermelho, a voz alta demais praquele lugar pequeno, rindo de coisa que nem era engraçada. Quando você me viu, deu aquele sorriso torto de quem reconhece, mas não sabe se cumprimenta ou provoca… e resolveu falar, falar muito, falar sem freio, como se tivesse esperando alguém aparecer pra aguentar aquilo. Você começou a cuspir tudo que tava preso, dizendo que o wrestling tinha virado uma mentira, que ninguém mais batia de verdade, que era tudo bonito, seguro, limpo demais; que qualquer cara agora entra lá, faz um Paradigm Shift bem feito e acha que tá acabando com alguém, mas não deixa marca nenhuma. E você batia o copo na mesa com força, repetia as frases, derramava bebida e nem percebia, como se quisesse convencer o mundo… ou só a si mesmo.
Eu fiquei ali ouvindo, porque pra mim aquilo não era novidade; eu já vivi tudo que você tava tentando explicar entre um gole e outro. Enquanto você falava, eu pensava no Stan do outro lado do mundo, no Japão, entrando num ringue e resolvendo tudo sem abrir a boca; um Lariat que virava gente do avesso, impacto que você sente até assistindo de longe. Nenhum discurso, nenhum bar, nenhum copo batendo em mesa… só o som do corpo encontrando o chão do jeito que tem que ser. E eu pensei na minha própria vida também; na minha casa quase vazia, na mala sempre meio pronta, na bota suja largada perto da porta, no telefone tocando com alguém dizendo pra onde eu vou depois… e eu indo, porque eu nunca precisei de mais nada além disso, nunca precisei me convencer de que eu amo luta; eu sei, porque eu preciso dela.
Você me perguntou como era; não como curiosidade, mas como alguém que tá tentando entender se ainda dá tempo de ser aquilo que imagina. Eu não te dei discurso nenhum, não te dei frase bonita; só falei que isso não é escolha que você faz num bar, não é coisa que você decide enquanto tá bêbado reclamando da vida. Isso ou tá dentro de você… ou não tá. E, se tiver, você não precisa falar tanto; você só vai lá e faz. Por um segundo, você ficou quieto; o copo parou, a mão parou, o olhar focou em mim como se finalmente tivesse escutado de verdade… e eu vi que você entendeu alguma coisa naquele momento. Mas não segurou. Você riu logo depois, pediu outra bebida, voltou pro barulho, voltou a falar alto, voltou a ser o cara que precisa se afogar pra falar sobre verdade… e ali eu já sabia que aquilo não ia durar naquela versão de você.
Eu fui embora sem olhar pra trás, porque eu não faço amizade em balcão de bar, não construo nada em conversa de madrugada; pra mim foi só mais uma noite, só mais um cara falando que quer algo real enquanto faz tudo ao contrário. Mas aquilo ficou na cabeça, porque você não era igual aos outros… você só tava enterrado fundo demais pra fazer alguma coisa com aquilo. E agora você abriu sua empresa, Big Mouth Loud; pegou tudo que falou bêbado naquela noite e transformou em alguma coisa de verdade. Abriu a porta, montou um ringue, chamou gente… e me chamou também. Não pra lutar com você, não pra resolver nada pessoal, mas porque você quer ver o que acontece quando alguém que vive isso de verdade pisa aí dentro.
Então agora eu tô na estrada de novo; caminhonete cortando o asfalto, indo encontrar o Stan num gas station perdido no meio de lugar nenhum, luz branca estourada, caminhão entrando e saindo, café ruim queimando na garrafa. A gente encosta, pega uma cerveja, talvez duas, troca meia dúzia de palavra, porque a gente nunca precisou de mais que isso… e depois segue viagem juntos, como sempre foi. Sem anúncio, sem espetáculo… só estrada e destino. E o destino agora é Ohio de novo; a sua estreia, a tal da King of the Indies Match, um monte de lutador, um monte de cara querendo mostrar que é diferente, que é real, que não é como os outros.
Eu já ouvi isso mil vezes; em cidade grande, em ginásio pequeno, em empresa nova que dura seis meses. Todo mundo fala que agora vai ser diferente, que agora vai ser de verdade… mas, no fim, quase tudo vira a mesma coisa. Muda o nome, muda o logo… a conversa continua igual. Só que, dessa vez, tem uma diferença que você mesmo criou; você chamou gente que não vive de falar, gente que não precisa provar nada com discurso, gente que não aprendeu isso em academia limpa. E eu não tô indo pra lá pra fazer promessa, não tô indo pra lá pra representar ideia nenhuma… eu tô indo porque isso é o que eu faço, porque eu preciso disso mais do que gosto disso, porque, sem isso, eu não sei o que sobra.
E quando essa porta abrir, quando esse ringue estiver cheio, quando todo mundo estiver esperando ver quem realmente é diferente… eu vou estar lá. Não como discurso, não como promessa… mas como o tipo de coisa que você falou naquela noite e não conseguiu segurar. E você vai estar lá também, sóbrio, no controle, comandando tudo que construiu… mas com aquela memória ainda presa em algum lugar, daquele bar em Ohio, daquele copo batendo na mesa, daquela conversa que você não conseguiu terminar do jeito certo. E eu quero ver o que acontece quando aquele cara encontra isso aqui de frente, sem bebida, sem desculpa, sem barulho pra se esconder… porque luta não é coisa que você explica, não é coisa que você vende como ideia; luta é o que sobra quando tudo isso some… e nisso, eu nunca precisei de ajuda pra ser bom.
[Um rancho afastado. O vento corta seco. Hansen balança lentamente na cadeira, um charuto aceso entre os dedos.]
Vocês se lembram apenas do barulho. Seja fora do ringue, seja dentro dele, derrubando algum pobre coitado com o golpe mais mortal de toda a indústria. Mas tudo isso ficou para trás... Nos últimos anos, o que tive ao meu lado foi o silêncio e algumas noites mal dormidas.
Quando você vive desse esporte... A adrenalina da estrada e das arenas pelo mundo, o seu corpo não esquece e ele te cobra toda santa noite. Às vezes eu me sento na poltrona para assistir um pouco de TV e, quando o sol cai, meu corpo começa a tremer e eu sinto a mesma raiva que eu tinha ao entrar em qualquer ringue, em qualquer lugar desse mundo.
Japão, México, Porto Rico, América... Eu estive em todo canto, meu irmão. Criando problemas e batendo em cada filho da puta que ficasse na minha frente e no caminho do meu sustento. Porque isso era o Wrestling para mim. Nada de paixão, um TRABALHO.
Eu tenho casa, família e contas para cuidar, e era dentro das cordas que eu fazia exatamente isso melhor do que todos.
Mas o problema de viver de um esporte é que, em algum momento, cedo ou tarde, por lesões ou apenas por questão de tempo, nossa hora chega e nós precisamos descer do ônibus e voltar ao mundo real. A uma rotina comum, uma vida ordinária.
Para alguns, é uma transição comum, parte da vida... Para outros, é o fim.
Para mim? Bem, eu achei que tinha me acostumado até receber a ligação do Moxley e escutar sobre a sua grande ideia. King of The Indies, Big Mouth Loud. Um local para quem leva o esporte a sério e está disposto a lembrar o mundo do que isso se trata, afinal.
E é engraçado olhar para trás, porque eu quase recusei. Eu iria dizer não até escutar o nome do Brody envolvido em tudo isso...
Eu conheci aquele cara há muito tempo. Nós somos diferentes, ele é um pássaro livre, camarada. Um verdadeiro independente. Mas, ainda assim, nos unimos dentro do ringue. Lutamos, sangramos e vencemos juntos. Há coisas maiores do que o dinheiro, e minha parceria com ele é uma delas. E ISSO não se recusa.
[Hansen dá uma puxada longa no charuto, soltando a fumaça devagar.]
Eu disse que me acostumei, mas nunca encontrei a paz.
Pro Wrestling é diferente de outras indústrias. Você cria uma casca ao lidar com tantos homens de egos inflados. Ao lidar com tanta violência a cada ida ao ringue. Sofrendo e causando. Um homem nunca é o mesmo após sentir o gosto do seu próprio sangue, então, quando você volta ao mundo real... É difícil, para dizer o mínimo.
Eu moro num rancho por um motivo: quando eu estava na cidade, bastava um olhar torto, um tom de voz equivocado ou até mesmo uma demora na fila do supermercado para eu sentir a vontade de arregaçar a manga e ARRANCAR A CABEÇA DE ALGUÉM!
Aquele Stan Hansen nunca foi embora, um caubói nunca morre, e ele continua dentro de quem eu sou.
Então agora... Eu irei finalizar meu charuto; arrumar minha mala; limpar minhas botas e beijar minha esposa. Nem que seja a última vez, eu irei voltar a pisar em um ringue da única forma que eu sei: sem estratégia ou planos, apenas com a única arma que sempre precisei.
And she goes by the name of Lariat.
Todos que ficarem no meu caminho estarão entre ela e anos de ódio escondidos no Grande Estado do Texas. Isso é um aviso.
No meio de um espetáculo de luzes pulsantes e flashes, ele surge, o garoto que virou sensação, o nome que não sai da boca do povo. Depois de conquistar o Rumble, Dominik desfila entre as semanas como quem tivesse o mundo na palma de sua mão, embriagado pela própria grandeza. O autoproclamado irresistível, o “pika de mel” da vez… porém….
ResponderExcluirBarulho de buzinas soavam alto, até parece que as trompetas do Apocalypse que tão soando nessa desgraça. Nem mesmo o som do reggaeton de Dominik era tão alto quanto isso. De longe, dá pra perceber que aquelas luzes e flashes não eram paparazzis porra nenhuma. Nosso herói? Lá está ele, no meio do engarrafamento, preso no seu Low Rider com defeito, enquanto uma fila de carros atrás dele vai acumulando cada vez mais.
Dom: Mamacita… te prometo que voy a resolver esto en un segundo, ¿ok?
Mas mal ele encosta na tampa do capô… puta madre! Uma nuvem de fumaça explode pra fora, cobrindo Dominik da cabeça aos pés. Ele sai todo preto, parecendo que acabou de sair de um churrasco, de “pika de mel” agora virou “pika de carvão”.
Liv: Dom… acho que você devia aceitar a proposta daquele lunático do Moxley. A gente se empolgou tanto no rolê que, na real, nem mais dinheiro tem pra levar no concerto! E duvido muito que seu pai vai ajudar em alguma coisa.
Dom: Eu não preciso entrar em outra empresa de wrestling, mamacita… eu já tô no topo! Main Event do Homecoming, eu vou estar no pôster, com meu sorriso encantador, enquanto aqueles vermes da GCW ficam lá, cheios de inveja do meu gingado e do meu sorriso. Meu sangue latino ferve só de imaginar aquele título apoiado nas suas coxas, enquanto fico a bailar no ringue.
Não há necessidade de sair da zona de conforto agora, e pelo que eu tô vendo, vai ser uma caralhada de brutamontes que adoram quebrar e estilhaçar corpos entrando nessa empresa! E o Jon Moxley…ele tá selecionando a gente pra quê? O BBB do Hardcore? Só faltou na prova do líder enfiar um prego no rabo de um! Essa não é a minha praia e muito menos minha vibe.
Liv: Dominik, estamos aqui feito idiotas enquanto um bando de arrombados quer nossas cabeças! Não somos a porra do Bonnie & Clyde pra sair atirando em todo mundo e cair fora! Liga pra ele agora!
No meio de toda essa adversidade, um calvo, com uma pança que claramente é de muito churrasco e Skol Beats, foi peitar o nosso querido heroi “Dirty” Dom. Dominik dá um passo atrás, tosse, coça a cabeça e pensa: “Mamacita… que caralhos eu fiz pra merecer isso?”
NPC: Ô moleque, vai demorar muito aqui caralho?
Dominik: Moleque? ¿Sabes quién soy?
NPC: Não entendi porra nenhuma, mas cai fora daqui ou eu chamo a porra do ICE, seu filho da puta.
Dominik fechou seu sorriso branco colgate na hora, com os olhos arregalados e com uma fúria que nem mesmo o Popeye quando come espinafre teria, suas palavras são:
Dom: ? ¿QUÉ DIJISTE, HIJO DE PUTA? VOU REPETIR DE NOVO, S-A-B-E-S Q-U-I-E-N S-O-Y? Eu sou a porra do campeão do Royal Rumble, filho de Eddie Guerrero campeão intercontinental da ROH, e o melhor wrestler da atualidade. A PORRA DO SEU FILHO no teu carro devia me admirar.
NPC: Foi mal, prefiro assistir o documentário do Brownsky Cardona que ver suas lutas de merda.
Dom: ……
Após um breve silêncio, e os outros passageiros todos sairem do carro pra ver o que tava acontecido. Dominik com um rugido como se incorpora-se o próprio Conan o barbáro ou melhor, o Zorro, pega um pedaço de madeira do chão e começa uma batalha mortal contra o careca fudido. Todos se juntaram para tentar separar até a chegada da policia enquanto Liv fingia não conhecer nosso destemido bigodudo.
No final da noite. Dom está sentado numa cadeira ao lado de Liv, ainda todo sujo de fuligem, com as mãos algemadas uma visão que mistura derrota, exagero.
Liv: “Dom, agora vamos ligar pra eles resolverem isso pra nós, né?”
Ele suspira, coça a cabeça e olha pra Liv com aquele olhar dramático:
Dom: “…Tá bom, tá bom… eu vou entrar nessa….”
Dominik Mysterio
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ResponderExcluirO som estrondoso estourava nas ruas da nossa querida Beverly Hills. Um novo morador tinha acabado de encostar na área pra somar na vizinhança,era ele: o filho da puta com a maior malemolência entre a rapaziada, o cara com a voz abençoada por GOD, aquele que, se encostar na tua namorada, no mesmo segundo ela já vira tua ex. O incrível, gostoso igual diamante negro, e o futuro namorado da tua ficante J-T-G.
ResponderExcluirO rapper tava no seu momento particular, largadão no banho gelado da sua banheira banhada a ouro, o lado de uma loirinha bonita pra caralho mas interesseira num nível que, se o nosso mito bobear dois segundos vai ficar sem casa e tendo que pagar pensão em dois estalos.
Loira que o JTG não lembra o nome: Querido, por que a gente ainda tá nessa banheira? A cama é tão confortável pra ficarmos juntos… se ficar aqui vai pegar um resfriado.
JTG: Hey, lady, hold on. Agora eu tô com a mente em outro lugar, sacou? Um prodígio como eu não tem tempo pra deitar e fazer love assim do nada não é assim que a parada funciona, feel me? Hoje meu tesão tá é naquela luta. Só de pensar que vai ser minha primeira vez pisando naquele ringue… já sinto o calor subindo pelos pés, a energia batendo no peito. WHO ELSE IS WITH ME? WHO IS THE BEST PLAYER? ME J-T-G, DO you understand now player?
Loira: Quê? Por que diabos você tá falando assim comigo? Eu só tô aqui porque você me convidou e prometeu uma viagem pra Cancún, e até agora a gente não saiu nem da fronteira do México, “player”
JTG: É que tu ainda não entendeu o que é o lifestyle do ‘J-T-G’, baby. Eu já falei: eu não sou só um rapper torrando grana em jatinho e vagabundas. No pacote J-T-G vem tudo junto: jatinho, garotas do job… e luta livre. Porque enquanto uns voam pra Cancún, eu voo em direção ao que meu coração e meus instintos mandam. Aquele discurso do Jon Moxley acendeu algo aqui dentro, trouxe o moleque de volta como se um anjo calvo tivesse descido dos céus pra acordar o mini Jaysson, o garoto que sonhava ser super-herói e sair distribuindo porrada em todo mundo.
Loira: Ta bom, ta bom “J-T-G”, mas porque alguém que já tem tudo vai ir se envolver com essa lutinha de mentira?
JTG: Lutinha de mentira???
A água da banheira transborda. o cara levanta todo molhado e imponente… o pé escorrega no piso ensaboado e PÁ!, caiu de bunda no chão com tamanha idiotice que ouvia.
JTG: GIRL! IT’S NOT FAKE. Se eu, J-T-G, disse então tá dito. Igual minhas canções, aquilo é pura arte, é a gente se expressando na violência crua. Não é à toa que o convite do Moxley me agradou tanto. Eu não preciso cantar pra milhares agora… eu preciso é da melodia de ouvir meus adversários implorando no ringue. E quando eu transformar essa experiência em som, vai ser G-R-E-AT! Até Beethoven e Mozart iam largar o piano e cair aos meus pés. Meu álbum vai estourar no topo das paradas e a capa? Com meu físico aesthetic de escultura de museu, de pé no topo, e meus oponentes empilhados abaixo, uma obra clássica que o mundo inteiro para pra admirar, understand now?
Não sou muito de puxar o saco de ninguém, não mas tem uma exceção: Elijah Burke, lá da JWW. Mano… quando eu crescer eu quero ser um filho da puta daquele nível. Sair no soco com os mais casca-grossa e terminar a noite com o cinturão pesado batendo na minha cintura. Pensa só o quão gostosa tu ia ficar com um cinturão com o meu nome preso nessa tua cintura linda, baby. Nem Afrodite ia resistir a um homem nesse nível… e nem mesmo uma deusa teria poder pra te separar de mim, é…. qual é o nome dela mesmo?.....
A garota soltou um sorriso, a mina até esqueceu que o nosso protagonista tinha acabado de admitir que curtia as do job. Vai ver é porque J-T-G só guarda na memória nome de mulher de caráter… as que querem o dinheiro dele ele nem salvo contato. Perai, para tudo….. ele está escrevendo….. O filho da puta teve uma ideia!
“Eu não quero perder, essa rinha de lutadores vai ser incrível pra valer,
ExcluirVocê vai encarar? Então já começa a rezar,
Porque nem mesmo o SUS vai dar conta de te salvar.
Sua namorada nem te vê? Claro, ela mudou de direção,
Trocou tua sombra fraca pelo brilho do campeão.
J-T-G na cena, sexual chocolate de respeito,
Quando eu passo, até o espelho fica olhando meu peito.
My dick is ready for you, mas não vem com I love you,
Isso aqui é só vitória, sem romance no menu.
J-T-G no topo gritando: I’m a motherfucker GENIUS!”
JTG: Damn… eu sou realmente um gênio! King of the Indies, né? Tá longe… mas ao mesmo tempo perto. Só de falar o nome já me dá arrepios. Quem imaginaria que eu teria coragem de pausar minha carreira bem no topo onde eu cheguei? Mas não tem jeito no fim, isso aqui vai virar combustível. Inspiração pura, tanto pro artista quanto pro wrestler. Ohio não é? Acho que chegou a hora de dar uma visitinha.
Horas depois, no mais absoluto nada, J-T-G simplesmente decidiu que ia pra Ohio no seu jatinho particular. O filho da puta decolou no meio da madrugada… e ainda esqueceu o som ligado na mansão, estourando sozinho pras paredes vazias de Beverly Hills.
Após algum tempo, apenas havia nosso protagonista e uma sala com pouco mais de 200 lugares em volta.
JTG: é aqui que eu vou ter que chutar dezenas de bundas, é? Pequeno demais pra alguém do meu tamanho. Eu fui feito pra palco gigante, um Madison Square Garden da vida é que combina com a minha grandeza. Isso aqui parece o palco de show de talentos da minha escola… e ainda assim os 200 lugares vão lotar só com minhas fãs gritando meu nome.
Ele começa a se dirigir à saída, já pronto pra ir embora daquele lugar abaixo do seu padrão, mas algo o faz parar no meio do caminho. Em vez de sair, muda de ideia e decide se sentar numa das últimas cadeiras lá no topo, observando tudo de cima. A vibe muda totalmente do arrogante e excêntrico rapper.
JTG: Não sabia que era essa a visão que o público tinha do palco… Quando eu era só um garoto no Brooklyn, eu nem tinha dinheiro pra ingresso. Tudo que me restava era assistir pela televisão aqueles caras brilhando ali embaixo, gigantes, pareciam até inalcançaveis… eu prometi pra mim mesmo que um dia a vista ia ser deles me olhando…. e esse é o começo de tudo. Garotas e fama? Hoje isso é só bônus. Eu não preciso fazer esforço nenhum pra ter essas coisas. O que eu vim buscar aqui é outra parada satisfação própria. Resgatar o amor verdadeiro pela glória, sem ser só prazer e luxúria. Porque no fim, o que eu quero não é só ser visto… é merecer ser lembrado. inha carreira musical pode até ficar em segundo plano, aqui no wrestling eu quero ser eterno.
Ele se levanta, coloca a cadeira de volta no lugar e, a passos lentos, se retira. No instante em que cruza a saída, já não era mais o J-T-G falando, era o pequeno Jaysson.
Enquanto isso, em Beverly Hills… várias viaturas da polícia cercam a mansão do rapper por causa do barulho.
Luzes vermelhas e azuis piscando nas paredes de mármore, vizinhança em choque, e a loirinha agora algemada, maquiagem borrada e sendo levada pelos tiras. Isso ta parecendo até CSI. Suas únicas palavras ecoam na rua inteira:
Loira que JTG não lembra o nome: JTG, CADÊ VOCÊEEEEEEE?!
JTG
Prólogo: O Centro de Tudo
ResponderExcluirO relógio na parede marcava três e quinze da tarde quando Tyler Breeze cruzou as pernas no divã, olhando rapidamente para o próprio reflexo na tela preta do celular. Ajustou o cabelo com dois dedos em um gesto quase involuntário.
A psicóloga observava em silêncio, a caneta apoiada no caderno.
— Então — disse ela, finalmente — você mencionou ao telefone que está prestes a entrar em uma nova empresa.
Tyler soltou um suspiro curto.
— Big Mouth Loud. Já ouviu falar?
— Não.
— Sortuda.
Ele deu um pequeno sorriso, daqueles que parecem ter sido ensaiados diante de um espelho.
— É um lugar cheio de homens... — Tyler fez uma pausa, procurando a palavra, embora claramente já a tivesse escolhido antes de entrar ali. — Tóxicos.
A psicóloga ergueu ligeiramente as sobrancelhas.
— Tóxicos?
— Ao extremo. Do tipo que grita, bate no peito, acha que ser um idiota é personalidade. Você sabe. Masculinidade frágil, ego inflado, essas coisas.
Ela fez uma anotação.
— E por que você quer trabalhar com eles?
Tyler demorou alguns segundos para responder. Não porque não soubesse, mas porque parecia estar escolhendo a forma mais elegante de dizer algo que, no fundo, já o favorecesse.
— Porque alguém precisa elevar o nível.
A psicóloga levantou os olhos do caderno.
— Quero dizer... alguém precisa trazer um pouco de classe para aquele lugar. Um pouco de... — ele apontou discretamente para si mesmo — refinamento.
Silêncio.
— Tyler — disse ela — você começou a terapia porque tinha dificuldades em reconhecer padrões de narcisismo no seu comportamento.
— Tinha, doutora. Bem conjugado.
— Você acredita que isso mudou?
Ele sorriu. Um sorriso calmo, seguro demais para alguém refletindo sobre si mesmo.
— Eu definitivamente sou uma pessoa melhor do que quando comecei aqui.
— Em que sentido?
— Em muitos. Antigamente eu achava que era superior às pessoas.
— E agora?
Tyler pensou por um instante.
— Agora eu só reconheço quando isso é objetivamente verdade.
A psicóloga fechou o caderno por um momento.
— Tyler, você descreveu a organização inteira como tóxica. O que exatamente isso significa para você?
Ele ficou pensativo.
— Pessoas que não percebem o impacto que têm nos outros. Que vivem presas ao próprio ego. Que transformam tudo em competição.
— Entendo.
Ela fez outra pausa.
— Você acha que está imune a isso?
Tyler abriu um sorriso de canto.
— Não imune, apenas… melhor equipado.
— Como assim?
— Autoconsciência. Terapia. Crescimento pessoal.
Então acrescentou, quase casualmente:
— E, claro, talento.
A psicóloga respirou fundo.
— Tyler… você já considerou que talvez esteja indo para esse lugar porque ele permite que certas partes suas continuem existindo?
Ele inclinou a cabeça.
— Partes minhas?
— As que gostam de ser o centro de tudo.
Não mais que um segundo se passou até que a resposta viesse até ele.
— Doutora, eu sou um lutador profissional.
Ele se levantou, ajeitando a jaqueta como se estivesse prestes a entrar em um palco invisível.
— O centro de tudo é literalmente a minha vida.
A psicóloga observou enquanto ele caminhava até a porta.
— Tyler.
Ele parou.
— Sim?
— Na próxima sessão, gostaria que pensássemos em outra possibilidade.
— Qual?
Ela respondeu com calma:
— Que talvez você não esteja indo para um lugar cheio de homens tóxicos.
Tyler franziu levemente a testa.
— E para onde eu estaria indo?
Ela segurou seu olhar por mais tempo do que o habitual.
— Para um lugar onde finalmente vai encontrar pessoas muito parecidas com você.
Tyler ficou em silêncio.
Então soltou mais um sorriso tranquilo, confiante.
— Doutora — disse ele — isso só prova que eu vou ser o melhor lá também.
E saiu.
Eu estava perdido.
ResponderExcluirSemana atrás de semana, a vida na estrada é cruel, ainda mais enquanto fazia curativos e me anestesiava com inúmeros comprimidos. Minha concepção de tempo parecia abstrata. Multidões gritavam meu nome enquanto eu sofria para entender os limites do meu próprio corpo. A adrenalina me guiava até o ringue, a partir daquele momento o restante era mero detalhe. Aqueles 2 segundos no ar antes do impacto de meu Swanton Bomb pareciam como horas, premeditavam mais uma de minhas vitórias. Essas que, sendo honesto, pouco me recordo. Apesar de todo o dinheiro e reconhecimento, meu corpo se desmanchava a cada show. Todas essas ressalvas pareciam irrelevantes ao ouvir milhares de pessoas gritando o meu nome. Em algum quilômetro dessas estradas percorridas, minha cabeça viajava pelos motivos de todos esses esforços. Em muitos momentos, as dores se tornavam insuportáveis, os caminhos entre shows pareciam intermináveis, era inevitável usufruir de substâncias que me anestesiavam durante essas rotas.
Em algum momento, o wrestling se tornara um motivo para me dopar, seja por conta das dores ou pela ânsia de estar em uma nova cidade, com milhares de fãs a minha espera. A cada show, era minha responsabilidade se arriscar mais. Aquilo que havia feito na semana anterior não seria mais suficiente pra entreter aquele público. Nenhum dos diretores me comunicavam suas expectativas, mas as críticas continuavam a vir assim que eu não entregasse a mesma apresentação de outros dias. Não havia lugar para incertezas, a constante era que Jeff Hardy entregasse algo que o público se impressionasse ainda mais que em outras cidades.
Não posso negar, havia algo nessa necessidade que me levava ao meu limite. Mesmo as mais pesadas das drogas não traziam a mesma êxtase daquela silêncio ensurdecedor enquanto eu me arriscava novamente em spots mais perigosos do que qualquer um poderia imaginar. O salário ao fim do mês era o mesmo dos outros. Os riscos, não. A cada semana, mais anestésicos, mais drogas, mais preocupações.
Em uma dessas turnês, eu cheguei ao meu limite. As substâncias que me mantinham inspirado haviam ultrapassado barreiras que eu não poderia imaginar. Não havia mais tesão em lutar, em alguma dessas longas jornadas poder participar de shows eram apenas um pretexto para continuar usando.
Nesse momento, decidi que não existia mais propósito em arriscar meu corpo da maneira que eu fazia. Essa decisão foi a mesma que me tornou descartável aos olhos de meus chefes.
Estive longe do wrestling por algum tempo, mais do que eu imaginava que conseguiria. Mas, não retornaria sem algo que me trouxesse a mesma ânsia. Quando recebi a ligação de um velho amigo... tudo mudou. Aquele vazio que sentia ao viajar de cidade em cidade, voltou ao me deparar com a ausência de ação. A falta de wrestling me trouxe a refletir sobre minhas paixões e verdadeiros objetivos. Entre todas as viagens e diferentes experiências que pude viver sob influência de diferentes drogas, nada puderam substituir o que vivi dentro de um ringue. Apenas precisava de algo que me movesse. Alguma coisa que me fizesse enxergar, novamente, um motivo para colocar meus ossos em cheque. Nada além disso. Não me importa as ovações, públicos me aclamando, pedisos de autógrafo. Dessa vez, será diferente. Admirações vazias me levaram ao buraco, aquele Jeff que se mataria por um a reação barata foi morto assim como meu respeito pela comunidade do wrestling.
The Enigmatic, Jeff Hardy
Maldito seja o homem que me criou neste mundo tão mesquinho e tão fatal
ResponderExcluir[Saya está sentada à uma larga mesa com um grande caixão no centro, e vinte velas o cercando]
Você sabe qual é o problema daquele que é imortal? Ele persevera. Maldito seja o homem que o criou neste mundo tão mesquinho e tão fatal. Uma fênix que não fora confinada em uma gaiola tende a morrer todos os dias, e renascer todos os outros para morrer da mesma maneira de novo e de novo. Você sabe qual é o problema daquele que é imortal? Ele não enxerga isso como um fardo, mas sim como um privilégio. Como se morrer todos os dias fosse uma punição justa para que ele tivesse a grande oportunidade de continuar morrendo. Alheio a um sentimento escuso que transporta em seu peito: a inveja daqueles que experimentarão a morte apenas uma vez. Você sabe qual é o problema daquele que é imortal? Ele vive. Ele é perpétuo, e carrega consigo todos os seus erros. Ao ponto de já ter errado tanto, mas por ter permanecido, ver seus erros serem considerados acertos por aqueles que não têm oportunidade para errar. Ele acaba se tornando um exemplo a ser seguido por pessoas que não têm condição para seguir. Você sabe qual é o problema daquele que é imortal? Ele pode conquistar pessoas, ele pode conquistar o mundo, mas ele não pode conquistar o seu descanso. Como uma fênix ardendo o auge das suas chamas e percebendo que tudo ao seu redor são chamas. O problema daquele que é imortal é que a imortalidade é um inferno, o que explicita ainda mais a dicotomia: ninguém venera mais a morte do que ele.
Eu fui treinada assim. Cada fracasso, cada derrota absorvidos como a promessa de que a próxima vez que minhas cinzas se incendiassem eu voaria mais alto, brilharia mais forte. Em meio a infinitos dias bons, infinitos dias horríveis, ensinaram-me que isso era resiliência. Que a coisa mais importante nesta indústria, neste esporte, nesta arte, nesta vida… Era resistir. Apanhar, morrer, mas seguir. E que mais importante do que os cinturões que disputamos, do que a glória pela qual nos degladiamos, era a inspiração que eu traria para outros através da minha perseverança. Era a história que eu escreveria através da persistência. Eu era uma fênix, enfim, eu possuía um privilégio que tantos outros não. Esse era o meu poder, esse era o meu papel. Quando você pode voar, você olha para cima imaginando até onde pode chegar. Qual é o limite que Ícaro ultrapassou? Mas, eu olhei para o lado e finalmente este véu de fantasias ruiu: eu nunca fui a única. Incontáveis outras fênices pisam nos mesmos ringues que eu todos os dias. Incontáveis outras fênices me observam com brilho em seus olhos todos os dias. Sofrendo das mesmas angústias, iludidas pelas mesmas promessas. Minhas asas são feitas de fogo, mas tantas ao meu redor são feitas de fogo! Tudo ao meu redor é feito de fogo! Eu não sei qual é o limite que Ícaro ultrapassou, mas eu ultrapassei também porque tudo ao meu redor é um inferno!
Depois de anos e mais anos eu finalmente morri. The Golden Phoenix is dead! E ao me entregar ao abraço frio da inexistência, pela primeira vez eu me arrependi. Arrependi-me de tê-lo recusado por tanto tempo. Eu finalmente alcancei o céu. Mas, infelizmente… Eu ainda sou uma fênix. Alcançar o céu foi um grande feito, mas a minha permanência nele ainda não me foi concedida. Eu ainda sou feita de fogo, eu ainda estou presa no inferno. Minhas cinzas se reacenderam, mas dessa vez algo diferente se ilumina. Não mais um pássaro dourado, vagando pelos ares em busca de sentido. Agora, a Grande Marquesa do Inferno, em sua marcha encantadora e solitária de volta para o céu.
Eu tenho um trabalho a fazer. Recebi um convite para retornar ao esporte pelo qual eu me dediquei a minha vida inteira. O esporte que matou Saya Kamitani, o esporte que morreu por isso. Uma ala deste inferno da minha vida que havia se tornado tão… Monótona. A minha relação com ele mudou tanto nos últimos anos ao ponto de que eu não aceitaria este convite… A não ser que ele viesse como uma promessa. A Phenex canta uma melodia encantadora, uma súplica aos céus para que finalmente me aceitem. No convite, uma ode ao suplício. Uma música simples, uma canção similar àquela que me atraiu ao ringue pela primeira vez. Mas, meus ouvidos estão treinados agora, e eu sei qual é a letra e o ritmo que vamos usar. A coisa mais importante nesta indústria, neste esporte, nesta arte, nesta vida… É machucar! Enquanto o frio daquele abraço não arrepiar minha pele novamente, o prato frio da minha vingança irá saciar o meu espírito enquanto minha marcha prossegue. Ferir quem me feriu em troca de absolução, ferir quem não me feriu em troca do puro prazer de desmistificar o óbvio. Ferir aqueles que mataram o wrestling em busca de consagração, ferir aqueles que querem salvar o wrestling, mas não podem nem salvar a si próprios.
ExcluirPeço que não me interpretem mal. Eu não quero me vingar do wrestling por ter me matado. Eu o agradeço solenemente por isso. Como retribuição, eu retornei. Como retribuição, estou oferecendo a minha arte para guiar estas fênices perdidas no caminho da violência. Eu quero me vingar da antiga Saya Kamitani por ter contribuído com o movimento que destruíu a única coisa que amei sobre a vida. Da Saya Kamitani que lutava com medo de morrer, que vivia com medo da única expressão de arte humana que nos aproxima do nosso grande objetivo: a morte. Da Saya Kamitani que acreditava que o ápice de sua jornada seria a coroação como campeã. Que renascia todos os dias com medo de abraçar o fracasso. Afinal, ela era só uma fênix. A minha vingança é entrar no King of the Indies e machucar todos vocês. A minha vingança é vencer o King of the Indies, não para me consagrar, mas para que todos vocês percam! A minha vingança é matar todos vocês, para que as fênices renasçam renovadas por uma esperança vazia, e se deparem com a silhueta da Grande Marquesa do Inferno gargalhando sobre seus túmulos. A minha vingança será me tornar a Phenex Queen of the Indies, e a única maneira que vocês têm para me impedir… É ME MATANDO!
[Saya começa a gargalhar freneticamente e vira a mesa de uma vez, derrubando o caixão e as velas sem cerimônia. O fogo começa a se alastrar pela madeira do caixão e pela sala]
Essa foi a promessa que eu recebi, vingança contra Saya Kamitani ou a morte. A chance de ver com meus próprios olhos, de sentir com meu próprio corpo, se a indústria que ela ajudou a destruir possui uma última chance. Se o wrestling também é uma fênix esperando uma fagulha milagrosa para reacender. Depois de anos, eu finalmente retorno ao ringue iluminada. Não pelas minhas chamas, mas pela ciência de que sempre estive presa neste inferno e não posso sair tão cedo daqui. Pela ciência de que no primeiro evento da Big Mouth Loud, a minha boca irá se abrir para cantar uma melodia harmoniosa, em sincronia com os gritos de desespero de vocês, em sincronia com o silêncio desacreditado da plateia, e com o barulho do gongo soando para anunciar minha vitória.
Eu sempre achei que iria dar certo porque amava o wrestling. Mas, depois de abraçar o fracasso percebi que sempre fui tão vazia. E do lugar onde não há nada, surge o ´ódio. Vocês vão morrer querendo salvar o wrestling porque o amam, e eu vou matá-los porque eu os odeio!
[Saya gargalha de novo, enquanto as chamas tomam toda a sala]
Não queime uma fênix, apague-a
Saya Kamitani
The Phenex Queen
A Marquesa do Inferno
Oh, it's true. It's damn true...
ResponderExcluirDentro de um escritório de luxo, as luzes se acendem e iluminam o ambiente. Sentado atrás de uma mesa de madeira escura, um homem de óculos escuros observa a câmera de longe, tendo um sorriso no rosto.
Sabe, Mox, eu ouvi você falar sobre decadência, sobre fraqueza, sobre um esporte que perdeu a própria essência e, pela primeira vez em muito tempo, alguém finalmente teve coragem de expor o que muitos fingem não ver. Mas existe uma diferença fundamental entre nós dois, e ela define exatamente por que tudo isso que você está construindo já não te pertence mais.
Você olha para esse cenário e enxerga algo que precisa ser salvo, algo que precisa ser resgatado pela violência, pela resistência, pela tal “força bruta” que você tanto idolatra, enquanto eu olho para esse mesmo cenário e enxergo uma estrutura falha, pronta para ser tomada, reorganizada e dominada por alguém que entende que o verdadeiro poder nunca esteve nas mãos de quem luta mais forte, mas sim de quem controla o jogo enquanto os outros acreditam que ainda estão lutando.
Você reuniu homens, chamou de matilha, declarou guerra contra um sistema que você acredita estar corrompido, mas isso não é nem de longe uma revolução. Você ainda está preso à necessidade de combater algo, de provar algo, de bater de frente com uma ideia que já te venceu há muito tempo. Enquanto você distribuía socos tentando acordar um mundo que você julga adormecido, eu estava observando, aprendendo, entendendo cada engrenagem que mantém essa indústria funcionando, cada bastidor que define quem sobe e quem desaparece, cada decisão que transforma homens comuns em nomes inevitáveis.
E agora você aparece com a Big Mouth Loud, com esse discurso de mudança, de brutalidade e de sobrevivência acreditando que finalmente assumiu o controle. Mas a verdade é que você construiu um palco e todo palco, cedo ou tarde, encontra alguém que nasceu para ocupá-lo, alguém cujo holofote é brilhante demais para ser ofuscado.
Esse seu King of the Indies que você trata como um teste para separar “os poucos que ainda sabem lutar” dos muitos que você despreza, na verdade, é a maior ironia de tudo isso. Você não está criando uma competição, mas sim organizando uma coroação. Cada homem que atender a esse convite, cada lutador que entrar naquele ringue acreditando que está mais próximo da sua visão, mais alinhado com essa ideia de um pro-wrestling mais duro, mais real, todos eles vão perceber, tarde demais, que não estão lutando por você, nem por esse conceito distorcido de pureza que você tenta resgatar.
Eles estarão, na verdade, participando da consolidação de algo muito maior, algo que vai além da sua compreensão, algo que começa no momento em que eu decido entrar naquele torneio.
Porque você fala sobre criar um ambiente onde apenas os mais ardilosos sobrevivem e nisso, Mox, você finalmente disse algo que importa. Mas o que você ainda não entendeu é que ambientes assim não são liderados por quem os cria, mas são dominados por quem melhor se adapta a eles. Neste mundo não existe ninguém nesse negócio que entenda adaptação, controle e domínio melhor do que eu. Eu não sou um produto dessa indústria, mas sim um mecanismo que define como ela funciona.
Eu não preciso provar que sou perigoso porque o perigo real nunca anuncia a própria chegada. Quando ele se estabelece silenciosamente, já é tarde demais para reagir. Enquanto esses homens lutarem para sobreviver ao caos que você quer instaurar, eu estarei acima disso, moldando esse caos, direcionando cada consequência, transformando cada queda em mais um passo rumo ao controle absoluto.
ExcluirE é por isso que, quando esse torneio acabar e o último suspiro de resistência desaparecer, você não vai encontrar o “rei das indies” que tanto procurou. O que você vai encontrar é alguém que não apenas venceu o seu jogo, mas que reescreveu completamente as regras enquanto você ainda tentava entender como tudo saiu do controle.
Porque isso nunca foi sobre força, nunca foi sobre brutalidade, nunca foi sobre resgatar valores antigos, mas sempre foi sobre poder. E poder não pertence a quem grita mais alto, ou a quem bate mais forte, pertence a quem sabe exatamente quando agir, onde agir e, principalmente, a quem transformar a visão dos outros em ferramenta para o próprio domínio.
Então continue, Mox, traga todos eles até mim. Convide cada homem que acredita ter o que é preciso para sobreviver à sua BML. Alimente essa ideia de que você está construindo algo incontrolável porque, quanto maior for esse caos que você tanto deseja, mais inevitável será o meu domínio sobre ele. E quando tudo estiver completo, quando não restar dúvida, quando até você perceber o que realmente criou, a Big Mouth Loud não será lembrada como a sua revolução, nem como o seu legado. Ela será lembrada como o momento exato em que você abriu as portas para que eu assumisse tudo.
No fim de tudo, Mox, essa luta barata não vai criar o rei da BML. Você está entregando um império nas mãos do homem que nasceu para governar.
Deixe nas mãos do chefe, Mox, e tudo será resolvido.
Big Boss.
Biff Busick está andando de um lado para o outro em seu vestiário, passando fita em seus punhos antes de mais uma luta - a terceira em seu fim de semana, mas a primeira em Ohio.
ResponderExcluirEu ando ocupado... But fuck It, Biff Busick não recusa um bom pagamento para se matar dentro desse ringue contra quem quiser fingir que é bom o bastante para encara-lo.
Eu iria falar mais... Porém ações dizem mais do que palavras. E eu não vou gastar a maldita saliva após ver que Aristocraldo Benecral fez duas partes.
BIFF BUSICK
Dois anos atrás, Ohio. Um desses lugares que ninguém lembra o nome, mas todo mundo reconhece quando vê; rua larga demais pra quase carro nenhum, luz fraca piscando em poste velho, vento passando entre casas baixas com tinta descascando, e um bar com uma placa escrita Cold Beer falhando metade do tempo, como se nem ela tivesse vontade de ficar acesa. Eu tava com uma mulher que não perguntava nada, não queria saber quem eu era, e isso já bastava pra mim, porque eu nunca fui homem de explicar minha vida pra ninguém; eu entro, faço o que tenho que fazer e sigo em frente. A gente entrou, sentou, pedi qualquer coisa forte… e lá estava você, Jon Moxley, jogado no balcão como se aquele pedaço de madeira fosse a única coisa te impedindo de cair no chão.
ResponderExcluirVocê tava bêbado de verdade; não era pose, não era charme, era feio de ver. O copo indo e voltando sem parar, metade do líquido ficando pelo caminho, a mão tremendo, o olho vermelho, a voz alta demais praquele lugar pequeno, rindo de coisa que nem era engraçada. Quando você me viu, deu aquele sorriso torto de quem reconhece, mas não sabe se cumprimenta ou provoca… e resolveu falar, falar muito, falar sem freio, como se tivesse esperando alguém aparecer pra aguentar aquilo. Você começou a cuspir tudo que tava preso, dizendo que o wrestling tinha virado uma mentira, que ninguém mais batia de verdade, que era tudo bonito, seguro, limpo demais; que qualquer cara agora entra lá, faz um Paradigm Shift bem feito e acha que tá acabando com alguém, mas não deixa marca nenhuma. E você batia o copo na mesa com força, repetia as frases, derramava bebida e nem percebia, como se quisesse convencer o mundo… ou só a si mesmo.
Eu fiquei ali ouvindo, porque pra mim aquilo não era novidade; eu já vivi tudo que você tava tentando explicar entre um gole e outro. Enquanto você falava, eu pensava no Stan do outro lado do mundo, no Japão, entrando num ringue e resolvendo tudo sem abrir a boca; um Lariat que virava gente do avesso, impacto que você sente até assistindo de longe. Nenhum discurso, nenhum bar, nenhum copo batendo em mesa… só o som do corpo encontrando o chão do jeito que tem que ser. E eu pensei na minha própria vida também; na minha casa quase vazia, na mala sempre meio pronta, na bota suja largada perto da porta, no telefone tocando com alguém dizendo pra onde eu vou depois… e eu indo, porque eu nunca precisei de mais nada além disso, nunca precisei me convencer de que eu amo luta; eu sei, porque eu preciso dela.
ExcluirVocê me perguntou como era; não como curiosidade, mas como alguém que tá tentando entender se ainda dá tempo de ser aquilo que imagina. Eu não te dei discurso nenhum, não te dei frase bonita; só falei que isso não é escolha que você faz num bar, não é coisa que você decide enquanto tá bêbado reclamando da vida. Isso ou tá dentro de você… ou não tá. E, se tiver, você não precisa falar tanto; você só vai lá e faz. Por um segundo, você ficou quieto; o copo parou, a mão parou, o olhar focou em mim como se finalmente tivesse escutado de verdade… e eu vi que você entendeu alguma coisa naquele momento. Mas não segurou. Você riu logo depois, pediu outra bebida, voltou pro barulho, voltou a falar alto, voltou a ser o cara que precisa se afogar pra falar sobre verdade… e ali eu já sabia que aquilo não ia durar naquela versão de você.
Eu fui embora sem olhar pra trás, porque eu não faço amizade em balcão de bar, não construo nada em conversa de madrugada; pra mim foi só mais uma noite, só mais um cara falando que quer algo real enquanto faz tudo ao contrário. Mas aquilo ficou na cabeça, porque você não era igual aos outros… você só tava enterrado fundo demais pra fazer alguma coisa com aquilo. E agora você abriu sua empresa, Big Mouth Loud; pegou tudo que falou bêbado naquela noite e transformou em alguma coisa de verdade. Abriu a porta, montou um ringue, chamou gente… e me chamou também. Não pra lutar com você, não pra resolver nada pessoal, mas porque você quer ver o que acontece quando alguém que vive isso de verdade pisa aí dentro.
ExcluirEntão agora eu tô na estrada de novo; caminhonete cortando o asfalto, indo encontrar o Stan num gas station perdido no meio de lugar nenhum, luz branca estourada, caminhão entrando e saindo, café ruim queimando na garrafa. A gente encosta, pega uma cerveja, talvez duas, troca meia dúzia de palavra, porque a gente nunca precisou de mais que isso… e depois segue viagem juntos, como sempre foi. Sem anúncio, sem espetáculo… só estrada e destino. E o destino agora é Ohio de novo; a sua estreia, a tal da King of the Indies Match, um monte de lutador, um monte de cara querendo mostrar que é diferente, que é real, que não é como os outros.
Eu já ouvi isso mil vezes; em cidade grande, em ginásio pequeno, em empresa nova que dura seis meses. Todo mundo fala que agora vai ser diferente, que agora vai ser de verdade… mas, no fim, quase tudo vira a mesma coisa. Muda o nome, muda o logo… a conversa continua igual. Só que, dessa vez, tem uma diferença que você mesmo criou; você chamou gente que não vive de falar, gente que não precisa provar nada com discurso, gente que não aprendeu isso em academia limpa. E eu não tô indo pra lá pra fazer promessa, não tô indo pra lá pra representar ideia nenhuma… eu tô indo porque isso é o que eu faço, porque eu preciso disso mais do que gosto disso, porque, sem isso, eu não sei o que sobra.
E quando essa porta abrir, quando esse ringue estiver cheio, quando todo mundo estiver esperando ver quem realmente é diferente… eu vou estar lá. Não como discurso, não como promessa… mas como o tipo de coisa que você falou naquela noite e não conseguiu segurar. E você vai estar lá também, sóbrio, no controle, comandando tudo que construiu… mas com aquela memória ainda presa em algum lugar, daquele bar em Ohio, daquele copo batendo na mesa, daquela conversa que você não conseguiu terminar do jeito certo. E eu quero ver o que acontece quando aquele cara encontra isso aqui de frente, sem bebida, sem desculpa, sem barulho pra se esconder… porque luta não é coisa que você explica, não é coisa que você vende como ideia; luta é o que sobra quando tudo isso some… e nisso, eu nunca precisei de ajuda pra ser bom.
The Intelligent Monster
Bruiser Brody
A Cowboy Last Shootout
ResponderExcluir[Um rancho afastado. O vento corta seco. Hansen balança lentamente na cadeira, um charuto aceso entre os dedos.]
Vocês se lembram apenas do barulho. Seja fora do ringue, seja dentro dele, derrubando algum pobre coitado com o golpe mais mortal de toda a indústria. Mas tudo isso ficou para trás... Nos últimos anos, o que tive ao meu lado foi o silêncio e algumas noites mal dormidas.
Quando você vive desse esporte... A adrenalina da estrada e das arenas pelo mundo, o seu corpo não esquece e ele te cobra toda santa noite. Às vezes eu me sento na poltrona para assistir um pouco de TV e, quando o sol cai, meu corpo começa a tremer e eu sinto a mesma raiva que eu tinha ao entrar em qualquer ringue, em qualquer lugar desse mundo.
Japão, México, Porto Rico, América... Eu estive em todo canto, meu irmão. Criando problemas e batendo em cada filho da puta que ficasse na minha frente e no caminho do meu sustento. Porque isso era o Wrestling para mim. Nada de paixão, um TRABALHO.
Eu tenho casa, família e contas para cuidar, e era dentro das cordas que eu fazia exatamente isso melhor do que todos.
Mas o problema de viver de um esporte é que, em algum momento, cedo ou tarde, por lesões ou apenas por questão de tempo, nossa hora chega e nós precisamos descer do ônibus e voltar ao mundo real. A uma rotina comum, uma vida ordinária.
Para alguns, é uma transição comum, parte da vida... Para outros, é o fim.
Para mim? Bem, eu achei que tinha me acostumado até receber a ligação do Moxley e escutar sobre a sua grande ideia. King of The Indies, Big Mouth Loud. Um local para quem leva o esporte a sério e está disposto a lembrar o mundo do que isso se trata, afinal.
E é engraçado olhar para trás, porque eu quase recusei. Eu iria dizer não até escutar o nome do Brody envolvido em tudo isso...
Eu conheci aquele cara há muito tempo. Nós somos diferentes, ele é um pássaro livre, camarada. Um verdadeiro independente. Mas, ainda assim, nos unimos dentro do ringue. Lutamos, sangramos e vencemos juntos. Há coisas maiores do que o dinheiro, e minha parceria com ele é uma delas. E ISSO não se recusa.
[Hansen dá uma puxada longa no charuto, soltando a fumaça devagar.]
Eu disse que me acostumei, mas nunca encontrei a paz.
Pro Wrestling é diferente de outras indústrias. Você cria uma casca ao lidar com tantos homens de egos inflados. Ao lidar com tanta violência a cada ida ao ringue. Sofrendo e causando. Um homem nunca é o mesmo após sentir o gosto do seu próprio sangue, então, quando você volta ao mundo real... É difícil, para dizer o mínimo.
Eu moro num rancho por um motivo: quando eu estava na cidade, bastava um olhar torto, um tom de voz equivocado ou até mesmo uma demora na fila do supermercado para eu sentir a vontade de arregaçar a manga e ARRANCAR A CABEÇA DE ALGUÉM!
Aquele Stan Hansen nunca foi embora, um caubói nunca morre, e ele continua dentro de quem eu sou.
Então agora... Eu irei finalizar meu charuto; arrumar minha mala; limpar minhas botas e beijar minha esposa. Nem que seja a última vez, eu irei voltar a pisar em um ringue da única forma que eu sei: sem estratégia ou planos, apenas com a única arma que sempre precisei.
And she goes by the name of Lariat.
Todos que ficarem no meu caminho estarão entre ela e anos de ódio escondidos no Grande Estado do Texas. Isso é um aviso.
Nos vemos em Ohio.
Stan Hansen